quinta-feira, maio 31, 2007

O TIO - que não tendo filhos também foi - AVÔ

A vida dá tantas voltas. A nossa. A dos outros. A nossa junto com a dos outros. Embrulhamo-nos de maneira a que se criam nós fortes, apertados, (e agora queria acreditar), eternos.

Hoje morreu alguém que me chegou à vida por afinidade mas que parte como se um dos meus se tratasse. Recebeu-me desde do primeiro dia de (a) braços, literalmente, abertos. Acrescentou, como ninguém nunca tinha feito, um “ita” no meu nome. Eu, que tive alguma dificuldade em assumir a família dele como minha também, sempre lhe chamei assim: TIO. Primeiro à falta de uma maneira melhor para lhe chamar. Depois porque (já me) fazia todo o sentido.

Um dia, era a L. bem pequenina, ele arriscou: “se quiser eu pego nela ao colo para poder comer”. Nós todos, olhos esbugalhados. Nunca ninguém o tinha visto com os sobrinhos-netos ou outras crianças ao colo. E eu quis, claro. E ela gostou. E depois numa outra vez, passamos lá um fim-de-semana com ele, e ele sempre por ali, pertinho como se quisesse pegar nela, mas sem coragem, sempre atento apanhar-lhe os brinquedos e a dizer, várias vezes, que "mais um casaquinho não se perdia nada". Era Junho. Num ano em que isso queria dizer alguma coisa :P.
E a primeira vez, alguns meses mais tarde, que ela saiu do nosso colo para ir para o colo de alguém, por vontade própria, foi para o dele. Quando passou a visita diária da casa aquele seria o colo permanente dela. Juntos, ele a minha sogra, passaram a ser, dizíamos nós, “a dupla maravilha”!! Ela levantava-se ainda mais cedo para adiantar tudo fora de casa e depois cozinhava (tão bem que só de pensar nisso já estou a engordar :P), mudava as fraldas, dava as refeições, embalava-me as sestas da filha. E lá ia à vidinha. Ele sentava-se junto á cama, a velar-lhe o sono, que se pelava de medo que ela acordasse e ele não desse conta, e ao mínimo “ai” pegava nela ao colo. Espreitava o relógio: hora do lanche dava direito a telefonema para a sogra vir preparar. E eu achava ao máximo, eles, com aquela idade, ligados como nunca pela minha filha e pelas novas tecnologias. Se fosse cedo iam a pé, aldeia fora, chama-la. No Inverno ficavam os dois, narizes colados no vidro, à espera de ver a carrinha dela aparecer lá no fundo, antes da curva, contava-me ela orgulhosa. A rotina era sempre a mesma. Eu longe, muito longe, divertia-me a adivinhar-lhes os passos. Depois do lanche a sogra regressava ao trabalho e era só brincadeira e colo até ela ou o Zuzo voltarem. Eu, nesse tempo, recebia-a em casa muitas vezes já a dormir profundamente. Mas sabia-a tão bem!!! Enquanto lá esteve sempre fui leve, (não de) ultra-leve (:PP) para o trabalho. A vida na aldeia tem outro ritmo, outra cor. Eram os dias no horta, na vinha, no pomar. Era o cão, as galinhas e os coelhos. Eram as mulheres da apanha, da vindima, da poda. Eram muitos colos, muitos risos e muitas conversas. E o tio. Encontrava pessoas na rua, que mal conhecia, e que me diziam que nunca o tinham conhecido assim, ao tio, feliz da vida. Ele que passava a vida a tagarelar agora despachava-las porque tinha que tomar conta da “menininha”. Foi sempre assim que ele lhe chamou. Nunca o ouvi chamar-lhe de outra maneira. Tão doce. Tão meigo. E zangou-se comigo duas vezes na vida. Tão a sério que só me deu vontade de rir. Quando um dia cheguei lá a casa com um parque para a minha filha que lá passava os dias. Fulminou-me com o olhar enquanto perguntava: “Está à espera que eu meta aí dentro (olhar de reprovação) a menininha???” Eu lá lhe disse, "oh tio vai ser bom para os dois, não tem que andar sempre com ela ao colo. Eu quando era miúda passei muito tempo dentro desse parque”. Piorei, claro!! (lol) Meti-a lá dentro mas ao primeiro “ai” ele foi a correr buscá-la, voltou a fulminar-me, levantou a voz e disse: "Eu estou a aqui para garantir que ela nunca chora!! Nem que esteja todo o dia com ela ao colo!!". (Escusado será dizer que usaram o parque para lá meter tudo menos a minha filha :DD) Numa outra vez, saímos depois do almoço e ao regressar à tardinha tínhamo-lo à espera, em pé, à porta de casa: “Sabe que horas são??? Sabe à quantas horas essa menininha devia ter lanchado???" E eu gargalhei, e tentei explicar-lhe que tínhamos levado lanche. Mas ele bem sabia das rotinas deles à semana e achava que nem sendo a manhe podia interferir nelas ao fim-de-semana :DD. A minha filha era a menina dos olhos giros dele. Foi a sogra que se ofereceu para me ficar com ela, mas foram os dois – “a dupla maravilha”, brincávamos nós, que lhe deram alguns dos melhores meses da vida dela.

E eu tenho tanta pena que os últimos dois anos da vida dele tenham sido da maneira que foram. Que a vida possa dar as tais das (más) voltas e que ele se tenha alheado da vida (ou ela dele???) de maneira a não dar sequer conta que tínhamos outra menina. Que nunca pode ter o colo e o mimo dele.
A memória da L. pode até não conseguir recuar ao tempo em que passava os dias com o “titi” mas eu vou ter sempre muitas histórias para lhe contar sobre o homem que era irmão do avô, que não conhecemos, e que não tendo tido nem filhos nem netos, lhe deu todo o amor que só uma alma muito grande e generosa sabe dar.
Foi um privilégio ter este homem "aliançado" na minha, nossa, vida.

Etiquetas:

24 Comments:

Blogger Flores said...

Um beijo.

maio 31, 2007 6:13 p.m.  
Blogger SC said...

Tão, tão bonito...!

maio 31, 2007 7:26 p.m.  
Blogger gnoveva said...

:S

maio 31, 2007 10:32 p.m.  
Blogger Unknown said...

Um beijinho sentido.

(deve ter sido um privilégio tremendo ter uma pessoa assim a fazer parte da vossa vida!)

maio 31, 2007 10:39 p.m.  
Blogger Ana said...

Paz à sua alma.

Um beijo

maio 31, 2007 11:41 p.m.  
Blogger anne said...

:(
Bjs para ti

junho 01, 2007 9:58 a.m.  
Blogger . said...

Não precisava da desculpa das hormonas para chorar com este texto. Sincero. Fez-me lembrar tanta coisa. O poder da escrita é fenomenal, perpetua afectos, fá-los eternos. O teu tio. Um bem haja ao teu tio.

junho 01, 2007 10:31 a.m.  
Blogger Papoila said...

Descanse em paz!

junho 01, 2007 10:44 a.m.  
Blogger Ck in UK said...

Oh Zuza, so li metade!!!!escreveste tanto.
apenas digo que tio, avo etc nao passam de definicoes. Eu prefiro tio de facto, avo de facto etc e tal, que pode nao correspender com tio de direito, avo de direito, e por ai fora. Nao concordas?

junho 01, 2007 10:56 a.m.  
Blogger Cool Mum said...

Para a minha mãe e para mim e para os meus irmãos foi o homem que era irmão da avó, viúva desde os 26 anos, e que, não tendo tido nem filhos nem netos, nos deu todo o amor que só uma alma muito grande e generosa sabe dar.
Chorei-o mais do que ao meu verdadeiro avô.
Um grande beijo.

junho 01, 2007 11:06 a.m.  
Blogger Ana Paula said...

Um beijo grande.
Que descanse em Paz.

junho 01, 2007 11:59 a.m.  
Blogger T. said...

1 beijo

junho 01, 2007 12:23 p.m.  
Blogger a mãe dos miúdos said...

ela pode não ter recordações mas tem um dele nela, do que viveram juntos.

beijo grande

junho 01, 2007 1:58 p.m.  
Blogger Mar said...

Beijo grande!

junho 01, 2007 2:08 p.m.  
Blogger carla said...

Um beijo...

( tenho lido sempre!)

junho 01, 2007 2:33 p.m.  
Blogger S.A. said...

(bj grande... "inspiraste-me-"...)

junho 01, 2007 3:18 p.m.  
Blogger inesn said...

um abraço apertado.

junho 01, 2007 9:19 p.m.  
Blogger Repolha said...

beijinho

junho 02, 2007 1:25 a.m.  
Blogger Zuza said...

Obrigada a todas ;)))

junho 03, 2007 7:06 p.m.  
Blogger Jolie said...

um beijinho apertado pela partida desse Tio.

(e as palavras que lhe dirigiste... lindas)

Eu até aos três anos, estive em casa de uma tia que também tomava conta do seu pai, meu bissavô. Ele tratava-me assim, mesmo quase não conseguindo com ele próprio. Mesmo ele tendo morrido quando eu tinha dois anos e meio, eu conservo na memória alguns resquícios de momentos com ele. Era bonito que ela também o recordasse...

junho 06, 2007 12:14 a.m.  
Blogger LP said...

Um beijo grande. Esse homem foi um previlégio na vossa vida e mesmo que a L. não se lembre do titi vai ficar com algo dele para sempre.

junho 06, 2007 12:38 a.m.  
Blogger Mae Frenética said...

Zuza querida, e q essas recordaçoes sejam imortalizadas aqui e no teu coraçao.
Pq serao, de certeza.

E podes sempre contar estas historias a tua filha... ela vai gostar.

junho 11, 2007 11:45 a.m.  
Blogger Smas said...

Este post tocou-me muito… As (más) voltas que a vida dá...
É isso... a minha avó não está bem e os meus filhos são a luz dos olhos dela e estamos tão longe...
Um beijinho grande para ti e recorda à tua menina os miminhos que o titi lhe deu.
Um coração grande que viverá sempre nas vossas memórias.

junho 13, 2007 10:38 a.m.  
Blogger scaf said...

Mias vale tarde que nunca..aqui fica um beijo! :S

junho 15, 2007 10:35 a.m.  

Enviar um comentário

<< Home